Por onde passamos, além da natural curiosidade sobre nosso equipamento, as pessoas se interessam em saber como é a nossa vida de casal, dentro daquele espaço compacto. Como conseguimos estabelecer uma harmonia de vida a dois, quando a presença do outro é intensa e integral? Mais curiosos ainda ficam, quando revelamos a quantos anos estamos juntos. Parece-lhes que 22 anos é uma eternidade, incompatível com a cumplicidade e tolerância que nosso modo de vida demanda.

Eu lhes digo o seguinte:
Viajar é muito bom. Conhecer novos lugares, culturas, pessoas, é uma experiência para a vida toda. Se já é bom viajar sozinho, imagine acompanhado! É isso que somos. Duas pessoas ávidas por novos horizontes. Duas formas de ver o mesmo foco. Para mim é sempre um mistério observar como minha esposa vê e se surpreende com detalhes e experiências de nossas viagens. Vivemos no mesmo mundo, mas o vemos de formas diferentes. Essa diversidade nos garante sempre uma boa conversa quando o tempo nos leva a ficar confinados em nossa pequena casa.

Além disso, a divisão de tarefas e responsabilidades facilita muito o dia a dia. A Gleidys é o planejamento. O desenvolvimento dos roteiros inclui a pesquisa por campings que vamos visitar, mapeamento de eventuais pousadas, hotéis de estrada ou mesmo postos de combustível para paradas de descanso ou emergência. Descobrir os atrativos da região e distribui-los pelo tempo disponível. Cabe a ela também a nobre tarefa de “chef” de nossa pequena cozinha, operando milagres muito saborosos. Eu cuido da direção, da manutenção dos equipamentos, fotografia, filmagem, consultor para as aventuras e edição de nossos blogs e redes sociais.

Ah!! Gostamos muito de ler. Isso nos confere aquela paz que algumas pessoas só conseguem isoladas. E nossos gostos são quase que opostos. Enquanto eu prefiro documentários, técnicos, romances policiais e ficção, ela aprecia livros mais profundos, mentais e existenciais. Eu sou o racional, ela a emotiva. Ambos somos muito sensitivos e atentos ao outro. Afinal nos amamos e nos cuidamos com muito carinho.

P.S.: rola, de vez em quando, uma discussão. Somos seres pensantes e, por natureza humana, discordantes também.

Dia destes, lendo artigos sobre campismo na Europa (um de nossos destinos futuros), li um texto adaptado pela Aleah, uma viajante mochileira que edita o blog Solitary Wanderer. Me identifiquei tanto com ele, que saí a procura de uma versão de qualidade para o português. Acabei encontrando uma muito bem produzida pela Aveline do Aventure-se.com. Fiz algumas adaptações de texto e fotos. Copio abaixo para os amigos que sonham em dividir o mundo e suas viagens com alguém.

Namore uma garota que viaja! Uma garota que prefira gastar seu dinheiro numa viagem no final de semana, uma viagem bate e volta que seja, ao invés de torrar numa promoção do shopping. Ela anda com calçados confortáveis, pois nunca sabe qual distância irá andar naquele dia, afinal, ela não reconhece as distâncias como barreiras na vida.

Ela estará na rodoviária com um mochilão no próximo final de semana, ou em shows de bandas que você nunca ouviu falar “porque os conheci a um ano atrás, viajando”.
Ela carrega na bolsa lembranças de vários lugares diferentes, e sempre tem um lanchinho ou uma garrafa d’água dentro dela, pois vai que ela não volta pra casa naquele dia? É marcada em mil fotos diferentes, de pessoas que moram bem longe dela, coleciona presentinhos que ganhou dos amigos que conheceu pela estrada, tem planos para viajar pelos próximos 5 anos para rever todos que teve que deixar pelo caminho. Encontra pessoas no meio da rua em um lugar bem longe onde jamais você conheceria alguém, e você verá que do outro lado do mundo tem alguém que a olha com o mesmo sorriso bobo que você faz quando a vê.
Ela não será a pessoa mais bem vestida por aí, porém a pele queimada de sol e o corpo com os músculos naturalmente desenhados de tantos dias nas montanhas combinadas com brincos sul-americanos, uma mochila da Espanha e sapatos da ásia farão uma combinação de estilo tão único, tão vibrante, que você já saberá alguma coisa sobre ela antes mesmo de perguntar seu nome. Não jogue com ela, não diga que ela é linda, pergunte de onde vem essa camiseta que ela veste, escute-a, veja a simplicidade da resposta e não se preocupe: você viajará com os “causos” dela antes mesmo que perceba isso.
Ela lê livros de viagens, sabe nome de lugares maravilhosos os quais você nunca havia ouvido falar antes. Fala com uma paixão sobre os lugares, que é impossível não ter vontade de pedir demissão amanhã do trabalho, colocar a mochila nas costas e fugir com ela ao lado. Muitas vezes vai te surpreender resolvendo coisas de um jeito totalmente novo dizendo, quando vir a sua cara de espanto “é que uma vez quando eu estava viajando, aconteceu algo assim e…”. Ela vai querer te levar em todos os lugares em que esteve sozinha, e pensou como seria bom se estivesse acompanhada, vai fazer uma lista com você de “coisas para se viver esse ano”, vai completar com toda certeza, vai trazer cenários de filmes para sua vida, vai te fazer acreditar que passar a noite num saco de dormir com o céu estrelado te fará sentir muito mais especial que qualquer quarto de hotel 5 estrelas.

Namore uma garota que viaja porque ela ama a vida. Ela não tem tempo para picuinhas, sabe que a vida voa, e que é melhor amarmos agora, na maior das intensidades, porque nunca se sabe que curso a vida tomará amanhã. Você pode ir embora, se apaixonar por outro lugar, por outra vida, que não a inclua. Ela pode reclamar, mas sabe bem que isso acontece. Vai vibrar com suas conquistas que te levem pra longe dela, pois sabe o prazer que o desconhecido causa, e sabe também que as distâncias jamais levam as pessoas que amamos de verdade de nós, pelo contrário, as fixam que nem tatuagem. Não tem muitas coisas materiais, sabe que roupas desnecessárias na mala significam um problema de coluna por peso, passa dias e dias apenas com algumas peças, e continua linda de se ver: ela se veste dela mesmo, e não há como bater isso.
Não siga padrões com ela. Não faça nada que envolva muito dinheiro com ela. Escolha o caminho mais bonito da cidade para levá-la do trabalho até a sua casa, ou até o restaurante de comida peruana mais próximo, preste atenção nos comentários que ela fizer sobre as coisas no caminho. Uma garota que viaja tem o olhar aguçado de uma criança, vai te fazer reparar numa planta florida, num “grafiti” fantástico que você nunca reparou, num anúncio colado no ponto de ônibus, de um show interessante, vai definir os lugares pelos cheiros agradáveis no ar: “roma tem cheiro de pizza, que nem esse cheiro agora”. Tudo coisas que, de dentro de um carro importado com o ar-condicionado ligado, não aconteceria.

Casamento é algo que assusta a maioria das garotas viajantes, mas no fundo, é o que mais elas querem: alguém que elas possam rir tomando “uns bons drinks” relembrando as histórias de 1, 2, 8 anos atrás, alguém que tope uma casinha simples num lugar paradisíaco, e mesmo que você não faça a linha radical, que tire as fotos do rafting que ela estava louca para fazer, e a ajude a contar depois para os outros como foi a loucura, com a mesma empolgação. É, você vai se empolgar. Ela vai te propor um casamento numa montanha, com o sol nascendo, ou na fazenda de um dos seus amigos, só com aquelas 50 pessoas, que com toda certeza irão. Seja lá o que for, vai ser incomum, impensado como ela é, impensável, imprevisível. E a lua de mel, não espere menos que um mochilão! Menos dinheiro em cada lugar, mais lugares no itinerário, vários passeios e comidas curiosas encontradas pelo caminho, que não são oferecidas pelas agências de viagens. Aliás, agência o que?!

A menina que viaja não tem medo da idade, não tem medo das responsabilidades, das obrigações: ela já viu inúmeras soluções para cada caso por aí, já tem tudo montado na cabeça. A família de vocês vai ter um incrível conhecimento do mundo. Seus filhos vão saber o valor de cada refeição que tem, de cada teto que dormem, de cada monumento histórico que encontram na frente. Ela vai ensiná-los a respeitar e amar, incondicionalmente, a natureza, e ter uma habilidade incrível de se enturmar com qualquer tipo de pessoa do mundo. Serão pessoas bem queridas onde quer que vão. Ah, e não se esqueça do gato.
Pense nela aos 60: mesmo sorriso, mesmas andanças. O que te atrair nela, provavelmente será pra sempre, invariável com o tempo. Uma pessoa que acumulou uma qualidade de experiências notória, e que, a cada dia que passa, se divertiu com menos, se aborreceu com quase nada. Já terá vivido tanta coisa por aí que será a atração dos netos de todas as idades, explicando o significado do quadro “Maia” estranho na parede, e fazendo a dança indiana no casamento de um deles. Esse tipo de alegria nunca se apaga, só se prolonga, e se espalha a quem a cerca.

Namore uma menina que viaja. Se ela te escolher, acredite: já passou tanta gente pela vida dela, de longe, de perto, pouco tempo, muito tempo, e se ela te escolheu é porque ela realmente GOSTA de você. Sem inseguranças ou interesses, ela gosta de você e pronto. Deixe-a te carregar pela mão, durma no colo dela nas rodoviárias, delicie seu miojo de acampamento. Deixe o mundo ser apresentado a você, caso ainda não tenha sido, e veja como alguém pode, definitivamente, ser a chave da sua alegria.

Eu já encontrei a minha garota que gosta de viajar, e você?

 

Carlos Roberto Paiva

 

 

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Colunista: Carlos Paiva

Carlos Roberto Paiva tem 59 anos, é analista de sistemas quase se aposentando, natural do Rio de Janeiro. Montanhista entusiamado. Mora com a esposa Gleidys em Teresópolis, no Camping Clube Quinta da Barra, onde além de seu trailer fixo, estaciona sua Camper Duaron. Apaixonados por viagens, lugares e culturas novas, estão na estrada e nos campings há mais de 22 anos juntos. Editam os blogs Nas Estradas do Planeta e Cozinha Prática nas Estradas.

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