Outro dia, ao redor de uma churrasqueira num camping improvisado de Joinville, no estado de Santa Catarina, amigos campistas relatavam animadamente visitas feitas a regiões com natureza abundante. Estávamos acampados em uma fazenda com alguns raros pontos de luz e de água, acesso por estrada ruim, mas que era de grande beleza. Na verdade, os proprietários daquela área rural resolveram explorar o local como “camping para domingueiros”. Aliás, são muitas as regiões com potencial turístico e que não são exploradas da forma como poderiam ser ali na região do Rio da Prata, em Joinville. Também é comum ouvir desses proprietários explicações sobre porque não conseguem investir: falta apoio do governo, o acesso é ruim e por aí vai… É verdade!

Dias depois desse acampamento, encontrei durante uma visita à Biblioteca Pública, a obra Ponto de Vista, de Stephen Kanitz (Editora Senac, São Paulo, 2000), uma coletânea de artigos jornalísticos. Chamou-me atenção o artigo da página 17 com o título Turistificando o Brasil. Li, reli e compartilho o texto que produzi após a leitura, cuja citação de um parágrafo específico se encontra logo abaixo:

“Com recursos naturais, sol 320 dias por ano, um povo super-hospitaleiro, praias maravilhosas, restaurantes de primeira, o Brasil deveria ter de 10% a 15% de seu PIB comandado pelo turismo. O primeiro passo, portanto, para que possamos aumentar a indústria do turismo é ‘turistificar’ nossas cidades. Das cerca de cinco mil cidades brasileiras, somente 1,3 mil se cadastraram na Embratur como cidades potenciais para o turismo.”

A crítica de Kanitz é clara e demonstra o despreparo com que o setor turístico é tratado no Brasil. Claro que isso abrange o campismo que, aliás, deveria promover parte deste avanço econômico projetado pelo ¹autor do capítulo do livro Ponto de Vista (2000). Naquele artigo, Kanitz diz que cada cidade tem sua história, seus atrativos turísticos e que muitas vezes é desprezada por sua singularidade. Por não terem algo como um Corcovado, uma torre Eifell ou as quedas majestosas do rio Iguaçu.

Tomemos por base a política de turismo americana. As pequenas cidades norte- americanas, por menor que seja o vilarejo, dispõem de um folder indicando uma cascata, um museu –nem que seja de caixas de fósforo usados-, secadores de cabelo, coleção de pedras ou uma cerveja fabricada ali e que acaba por “turistificar” o local. Mesmo dizeres como “Aqui o presidente Lincoln se hospedou” ou fulano de tal, o cantor de rock parou para almoçar, qualquer particularidade transforma-se em fenômeno turístico para atrair visitantes. Por consequência dessa preparação, hotéis, campings, pousadas e restaurantes acabam se fazendo necessários para atender os turistas e que encontrarão ali motivo de visita, de estadia e que voltarão no próximo ano. O local foi “turistificado” e a exploração é consequência direta!

Já no Brasil faz-se o inverso: o governo financia grandes empreendimentos da hotelaria de luxo, tudo a juros subsidiados com o dinheiro do povo brasileiro e que depois de terminados, permanecem vazios, pois não há atrativos nem infraestrutura suficientes para o visitante. Muitas vezes vive de raros eventos anuais e esporádicos –carnaval, festivais, temporada de verão- e no restante do ano fica abandonado às traças. O que se vê são locais de grande potencial turístico sem estrutura ou com ocupação desordenada, como é o caso das temporadas de verão, onde balneário com população fixa de 3 mil habitante salta para 50 mil habitantes entre o natal e o réveillon. Isso porque a cidade não se “turistificou”, não atrai o turista fora da temporada e não é atrativo para o grande empreendedor. Cidades com esse perfil muitas vezes sequer possui um site -que funcione- para mostrar ao promitente visitante ou empreendedor seus potenciais.

Claro que para “turistificar” um lugar é preciso enfrentar barreiras locais de ordem financeira, política –interesses comerciais de “coronéis”- e de mercado e que muitas vezes conflitam com o que seria realmente interessante para o turista.

Enquanto continuarmos pensando assim, jamais alcançaremos um PIB de 15% produzido pela arte de receber bem, hospedar e vender serviços para o público nacional ou estrangeiro. Ao contrário, continuaremos levando nosso dinheiro para a Disney, para o desespero dos poucos empresários que compreendem o que é necessário para mudar esse quadro, mas não tem voz participativa ou representação competente para reverter o processo.

¹Castro, Cláudio de Moura e Ponto de Vista, São Paulo: Editora Senac São Paulo, 2000 (pág. 17- 19)

 

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Colunista: James Klaus

James Klaus é jornalista e pratica o campismo há mais de 30 anos. Nascido em Joinville, no estado de Santa Catarina, pesquisa o campismo no Brasil e no exterior. Realizou visitas a campings e fabricantes de equipamentos na Alemanha e também acompanha a evolução do setor no Brasil. Trabalha como redator/ apresentador na TV Babitonga (Canal 9 em Joinville) e na web TV Nós de Joinville, canal internacional especializado em campismo desde 2008. No jornalismo impresso, é colaborador da revista MotorHome e do jornal JNB, onde escreve a coluna Veículos.

james.klausmiers@gmail.com
www.nosdejoinville.com.br