Vamos Acampar
 

POR NÓS
Campismo é assunto sem começo e sem fim, portanto, inesgotável. Surge repleto de romance, talvez de algum mistério, mas não deixa de ser extremamente simples, como a essência e aspiração do próprio homem.

A Bíblia informa que Jabel, filho de Caim, “se recolheu à sua tenda”. Mas pouco interessa saber ou não se foi ele o primeiro campista. Do mesmo modo que não nos ocorre investigar se já existe alguém pensando em implantar uma área organizada em Marte. O significado e a importância do campismo nos dias atuais, do ponto de vista em que ajuda a amenizar nossa existência, nada tem a ver com o passado e o futuro remotos: as maçãs que hoje saboreamos não se igualam às do Eden, ou às que serão colhidas na selenítica cratera Copérnico.

Boa parte do que sabemos sobre campismo nos veio diretamente da vida militar. Avançando pelos palcos das batalhas, os soldados precisavam acampar. Os militares norte-americanos acamparam pela Europa usando, basicamente, os mesmos métodos dos exércitos de Caio Júlio César. Através dos séculos, o material militar de acampamento foi adaptado para servir às necessidades recreativas dos civis. Já as técnicas de sobrevivência nos chegaram através dos índios. Mas também esta matéria é irrelevante, porque hoje só acampamos por lazer, e não por obrigação ou condições de vida. Mesmo assim, a armazenagem de alimentos, a fogueira, os processos de caça e pesca, a escolha do local próprio para acampar,
a previsão do tempo e a própria ca-bana índia são pormenores interessantes que, embora melhorados pelo homem moderno, ainda não foram ultrapassados. A forma da canoa índia é um projeto insuperável, o melhor, o que permanece.

Acampar nada tem de místico. Não é necessário ler nenhum tratado de campismo, nem a história das grandes guerras mundiais. Para

acampar hoje basta apenas sentir o desejo ou a necessidade de recreação ou repouso e considerar o seio da natureza o melhor local para fazê-lo com proveito. Além disso, existem motivações mais ou menos fortes como o gosto pela aventura, pela caça e pela pesca; a investigação social ou científica; o prazer do mar; a prática do montanhismo ou da espe-leologia; a procura da paz interior ou a fuga à devastadora fúria da vida contemporânea. Todas são respeitáveis, genuínas e deliberada-mente espontâneas. Acampa quem quer e quem sente prazer e ama a natureza. Solitários ou em grupos, os campistas são os entusiastas de um ideal comum que reside, desperto ou adormecido, no coração de todo o homem.

Aprender a acampar nada tem de complicado e constitui um processo rápido de assimilação de alguma experiência própria ou alheia.

Um sociólogo francês referiu-se ao campismo como uma mania. Mas não é. Não há dúvida de que ocorre um crescente aumento do campismo familiar e de outros tipos, e nenhum oráculo pode prever, acuradamente, quando esse movimento encontrará seu ponto de equilíbrio.

O principal motivo para o forte desejo de fazer campismo em massa, na atualidade, não apresenta complicações. Não resulta do fato de sermos um povo sempre pronto a seguir qualquer tendência ou moda nova, mas decorre de uma simples, prática e lógica proposição de que o campismo é o melhor — e para muitos, o único — de todos os

negócios em termos de férias bem aproveitadas. Quanto a isso, não há contestação possível.

Contudo, muitas pessoas ainda encaram com timidez a idéia de começarem a fazer campismo. De certo modo temem parecer ridículas de início, tal como o indivíduo que começa a jogar tênis de mesa, ou que se dispõe a dançar pela primeira vez.

Essa preocupação não tem o menor fundamento, embora seja própria da natureza humana. Por-anto, quem jamais acampou não deve imaginar que seja o mesmo que fazer um discurso em público, ou vencer alguma prova de que dependa a sua vida. Seria maravilhoso se tudo neste mundo fosse tão simples como aprender a acampar!

A primeira coisa que você precisa ter é senso de confiança em si mesmo, isto é, que sua experiência inicial de campismo será bem sucedida sob todos os aspectos. Em se-

gundo lugar, você deve escolher um local de que goste, não isolado e cujo acesso possa ser feito de automóvel, trem ou ônibus.

Vamos supor que você é um homem casado, querendo passar férias acampado com a família. Como proceder? Quanto vai gastar? Que local escolher e o que vai acontecer quando chegar lá?

Em primeiro lugar, deve adquirir uma barraca ou um trailer onde possa acomodar todas as pessoas de sua família. Há barracas de

vários tipos, tamanhos e preços. Os vendedores das lojas especializadas — em geral bons campistas — poderão dar-lhe as informações necessárias. Há uma regra importante que não deve ser esquecida: uma barraca de boa qualidade dura 20 anos ou mais.

Escolha um modelo com so-breteto e piso plástico. Aprenda a armar e desarmar para não ter problemas quancjp chegar ao campo. Compre também sacos de dormir para todas as pessoas. Como a família vai cozinhar no acampamento, peça à sua esposa que se ocupe dos utensílios necessários. Compre um fogão a gás de duas bocas, próprio para camping e dois bujões de gás, também próprios para campismo. As casas especializadas têm grande variedade destes equipamentos e de muitos outros. Estes são os itens necessários para a sua primeira experiência. Nas seguintes, poderá aumentar os utensílios à medida que julgar conveniente.

Mais adiante divulgamos uma lista de objetos indispensáveis, agradáveis e muito úteis.

Onde acampar?

Existem no Brasil cerca de 500 áreas de camping muito freqüentadas, dez por cento das quais pertencem ou são administradas por clubes de campismo. As áreas pertencentes ou administradas por clubes só podem ser freqüentadas pelos respectivos associados e seus convidados. Nesta edição de “GUIA DE CAMPING” publicamos a relação de todas as áreas existentes no Brasil, com a indicação das que pertencem a clubes.

O principal clube de campismo brasileiro é o Camping Clube do Brasil, que afirma ter cerca de 100 mil associados e é proprietário ou administrador de 43 áreas. Optando por associar-se a um dos clubes de campismo, você precisará comprar um título — o do CCB custa, atualmente, Cr$ 10.000,00 — poderá contar com desconto na prestação dos serviços em seus campings.

No caso de nào pertencer a nenhum clube, a única restrição que se encontra é a não admissão nas áreas de camping pertencentes a clubes.

As áreas de campismo organizado restantes são municipais ou particulares. Você pode frequentar todas, pagando uma taxa local de serviços, diária — em torno de Cr$ 20,00 nas primeiras e de Cr$ 30,00 nas segundas, por pessoa. Os serviços incluem, conforme os casos, fornecimento de água e luz, utilização de piscinas e playgrounds, sanitários, lava-roupas e lava-pratos, e livre acesso a todas as demais instalações existentes. Alguns campings

BARRACAS
municipais não cobram taxas de serviço, ou colocam apenas uma taxa simbólica de Cr$ 5,00 ou Cr$ 10,00 para manutenção das instalações.

Os Estados de maior densidade de áreas de camping são: Rio Grande do Sul (33,8%), São Paulo (30,0%), Santa Catarina (9,2%), Rio de Janeiro (8,7%), Minas Gerais (5,6%). Já no que diz respeito ao número de campistas, surge Sao Paulo à frente com 31 % de cam-pistas, Rio Grande do Sul com 22,3 %, Rio de Janeiro com 15,1% e Minas Gerais com 10%

Além das áreas organizadas e livres (sem grandes instalações, mas próximas a centros de apoio), é sempre possível — garantida a segurança — acampar em áreas rústicas ou selvagens, em geral pouco freqüentadas, apresentando algum acidente geográfico ou paisagístico de interesse. Alguns desses lugares também estão assinalados nesta edição. Em qualquer caso, os campis-tas devem procurar informar-se junto às Prefeituras sobre as condições dos mesmos e obter a respectiva autorização para acampar. Nas praias ou terrenos sob jurisdição das autoridades marítimas, a autorização para acampar deve ser solicitada à Marinha e, em alguns casos, junto á PM. É proibido acampar em qualquer local incluído em área de Segurança Nacional.

Quase todos os clubes do Interior franqueiam suas sedes campes-tres aos campistas. Neste caso, a permissão é fornecida pela respectiva diretoria.

No Estado de São Paulo, o FUMEST — Formento, Urbanização e Melhoria das Estâncias, órgão vinculado à Secretaria de Esportes e Turismo do Governo, possui algumas áreas organizadas públicas. O acampamento é facultado aos portadores de uma carteirinha que pode ser obtida em sua sede — Rua Guaianazes, n°. 1128 – São Paulo, mediante a apresentação de documento de identidade, 2 fotos e o pagamento da taxa de Cr$ 10,00.

Um modo alegre de conviver

No camping, você não tem compromissos de qualquer espécie. Seu tempo é inteiramente seu e pode empregá-lo como quiser.

Sendo de temperamento comu-nicativo, você não terá dificuldade em fazer novos amigos, procurar novas amizades junto de seus companheiros. Eles estão nas mesmas condições e muitas vezes contam histórias interessantes, motivam-no para novas tarefas, passatempos e interesses.

Se você é do tipo solitário, ainda assim o camping é o seu meio. A observação da natureza, os longos passeios exploratórios, a convivência com os pássaros e as árvores vão trazer-lhe muitos momentos de satisfação.

Procure ser simples nos hábitos, nas conversas e no modo de vestir e de comer. O campismo é antes de tudo um tempo de relax para os grandes banhos de mar e de sol.

Muitos jovens aproveitam o campismo para conviver com outros jovens. As atividades relacionadas com o campismo, como a pesca, a caça submarina, o montanhismo e a esoeleologia ganham novos

adeptos a cada dia. Amadores de fotografia e de gravação de sons naturais passam longas horas em acampamentos ou passeando pelas florestas, lagos e rios observando, fotografando e registrando os sons da natureza.

Sendo uma forma econômica de viajar e conhecer o país, muitas pessoas utilizam as férias com esse objetivo e compilam dados etnográficos, geográficos, históricos e arqueológicos de interesse. Recentemente descobrimos um antigo acampamento índio, às margens do rio Paraguai, onde era possível colher muitos utensílios — cerâmicas, urnas funerárias e outros objetos de real valor arqueológico que havaiana pertencido à tribo.

Acampar é viver mais e o campismo é também uma escola de independência e liberdade. Por tais razões existe o movimento escotista mundial e, nos últimos anos a sociedade quase foi abalada pelos movimentos jovens naturalistas. Compreende-se que a única alternativa é amarmos a natureza que tudo produz e á qual todos retornam.

pistas que utilizam esta modalidade, outros preferem preparar suas refeições.

Partindo do princípio de que quem faz campismo não vai propriamente para um banquete, a regra saudável é aproveitar ao máximo os recursos locais para o preparo das refeições.

Se o acampamento estiver em zona frutícola, será boa idéia fazer um tratamento de desintoxicação com as frutas locais, abundantes e baratas; junto ao mar ou rios pisco-sos, o peixe constitui a base da alimentação. Esperar os pescadores pela manhã bem cedo, comprar o peixe ou os frutos do mar que trazem é uma tentação para os campis-tas experientes; em região horti-granjeira, os legumes podem ser a base da alimentação.

É quase certo, no entanto, que as pessoas não modificam profundamente seus hábitos alimentares quando acampam. Antes de consumir as frutas, é necessário lavá-las bem. A ingestão da água merece cuidados especiais. Em primeiro lugar, certificar-se de que as águas locais são potáveis, e depois utilizar o filtro. Existe um modelo simples, portátil e eficiente, em plástico próprio para campismo. Em caso de qualquer dúvida, a água para beber deve ser fervida. Uma gota de li-xívia para cada 3 litros de água também resolve o problema.

Um outro recurso muito aproveitado pelos campistas são os enlatados. Nossas indústrias de alimentos oferecem uma grande variedade de pratos enlatados, próprios para camping a prova de todos os riscos e para todos os gostos.

Os campistas mais experientes estabeleceram um método de alimentação que nos parece correto: de manhã, pequeno almoço substancial constituído de frutas, leite, ovos, mel, bolachas ou biscoitos, pão, manteiga e café. Para o almoço, a refeição principal, um prato quente e forte; no final do dia, um lanche não muito pesado, que pode incluir sopa, frutas, queijos, compotas e leite.

Durante o inverno, a alimentação não deve ser drasticamente modificada.

 

CEO e Editor do MaCamp | Campista de alma de nascimento e fomentador da prática e da filosofia. Arquiteto por formação e pesquisador do campismo brasileiro por paixão. Fundador do Portal MaCamp Campismo sonha em ajudar a desenvolver no país a prática de camping nômade e de caravanismo explorando com consciência o incrível POTENCIAL natural e climático brasileiro. "O campismo naturaliza o ser humano e ajuda a integrá-lo com a natureza."