Esta é uma discussão muito recorrente nas rodas de campistas e caravanistas. Temos visto circular pelos meios eletrônicos (fóruns, redes sociais, grupos, e-mails) mensagens e dicas destinadas a escapar da cobrança.

Chegamos a ver casos, de proprietários de VR´s caros, muito caros, repassando experiências de fuga de pedágios, onde optam por estradas alternativas, quase sempre em péssimo estado, inseguras e imprevisíveis, para economizar alguns reais. Qual motivo, na verdade, tem levado cada vez mais pessoas a agir assim?
Na minha opinião, quem age assim está direcionando, equivocadamente para a iniciativa privada, a sua insatisfação com o desleixo do governo, nas 3 esferas, para com a malha rodoviária. Se não, vejamos alguns números e argumentos:

O Governo Federal investe parcos recursos na malha rodoviária brasileira. Nossas estradas, por onde escoam 60% de tudo que é produzido no país, estão em condições muito precárias. Já são décadas de descaso.

A Confederação Nacional de Transportes – CNT, realizou uma pesquisa em 2014, que apontou o seguinte:
•    87% de nossas estradas são de pista simples
•    40% das estradas não tem acostamento
•    50% não tem placa de aviso antes de curvas perigosas
•    62% são consideradas regulares, ruins ou péssimas pelos usuários
•    38% são consideradas boas ou ótimas

Apenas 12% das estradas são pavimentadas. Isso representa pouco mais de 203 mil quilômetros asfaltados. Destes, 54,4% de responsabilidade dos estados, 32% são rodovias federais e 13,6% municipais.

Ainda de acordo com a pesquisa, os motoristas brasileiros gastam, em média, 26% a mais em manutenção de seus veículos, se comparados com outros países. Esse levantamento ainda mostrou que, na opinião dos usuários, as rodovias administradas pela iniciativa privada (concessão), 74% foram avaliadas como boas ou ótimas. As estradas de gestão pública, somente 29,3% obtiveram a mesma classificação.

É fato então, que a rodovia “pedagiada” apresenta boas condições. Contudo, o preço do pedágio é considerado, por mais de 70% dos usuários, ALTO. Transportadoras e caminhoneiros alegam que a tarifa interfere diretamente no custo dos fretes. O  IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) calculou, há 2 anos (valores da época), que o motorista brasileiro já gastava, em média, R$9,13 para percorrer 100 kms em uma rodovia “pedagiada”.
São Paulo é o estado com os valores mais altos de pedágio. Mas, também, é o estado que apresentou o melhor resultado: 78,4% das estradas no estado paulista foram avaliadas como boas ou ótimas. Não será sinônimo de que o recurso está sendo revertido para a melhoria das condições de rolamento?

Essa “certeza” de que os pedágios são caros vem sendo notada pela evasão nas praças de cobrança. À despeito de ser uma infração GRAVE, com multa de R$127,69 e 5 pontos na carteira, os números e as manobras utilizadas surpreendem.

Em 2013, em um dos pedágios do Rodoanel, que interliga sete rodovias paulistas, 167,5 mil carros furaram os pedágios. Isso representa quase 20 carros por hora. Em 2012, quase 880 mil motoristas passaram pelos pedágios de São Paulo sem pagar. No ano passado (2014), foram 1.475 milhão de veículos.

Alguém paga por isso. Por analogia, o gato da luz ou da água, prejudica toda a sociedade. Quem usa sem pagar, usa em demasia, descontroladamente. Quem usa e paga, trata de economizar. Mas não vê resultado na economia. Porque? Por que também paga pelo vizinho que rouba luz ou água. Não vendo horizonte, cada vez mais pessoas se arriscam e engrossam esse exército irregular. Enfim, está tudo errado. Está tudo muito caro. Pagamos fortunas por serviços que não recebemos. A corrupção é o “chorume” de nossa sociedade. Os exemplos vem de cima, como um maremoto, praticados por aqueles que (em tese) nos governam e representam.

Nosso povo é pacífico. Em alguns outros cantos deste mundo, essa classe usurpadora, que usa a fome e a educação como mercadoria de manobra, já estaria eliminada. Melhor dizendo, nunca chegaríamos ao ponto em que estamos.

Mas voltando aos números. Se 1.475 milhão de veículos, em 2014, deixaram de pagar pedágio, ao custo médio de R$9,13 (valores de 2012, por 100km rodados), teremos a fortuna de quase R$ 14 bilhões que deixaram de ser recolhidos pelas concessionárias e que, por este motivo, foram incorporados aos custos. Na planilha de custos das concessionárias, estão os riscos da evasão, que são atualizados com base nas estatísticas apuradas ano a ano. E assim vamos indo, no sem fim da vantagem momentânea, que muitos cismam em perpetuar e propagar.

O que me motivou a escrever sobre este assunto, foi a experiência de um colega caravanista, que alardeava aos 4 cantos suas manobras espetaculares para fugir das tarifas. Dentre elas, a mais usada hoje em dia, que consiste em manter-se próximo do veículo da frente, nas cobranças automáticas. Assim que o veículo passa, a cancela aguarda o sensor de presença liberar o fechamento. Nosso colega acima então, acelera e passa, não sendo tarifado pelo sensor, que não teve tempo de ler a etiqueta presa no seu para-brisa dianteiro. Emocionante diriam alguns.

Essa prática já produziu muitos acidentes, de efeitos prático e imediato. Sérios prejuízos para si mesmo e para quem agia de forma correta. Mas não foi isso que ocorreu com nosso amigo. Em trânsito por uma rodovia pedagiada, esse amigo perdeu uma roda. Perdeu também o controle do veículo e no capotamento, sofreu muitos ferimentos, incluindo aí a perda da consciência de sua esposa. Me contou, que nos longos 14 minutos que esperou por socorro, dentro do carro cuidando dos sinais vitais de sua esposa, percebeu-se confiante no pronto atendimento da concessionária. O que de fato ocorreu. O sistema de câmeras flagrou o acidente. Em paralelo, outro usuário acionou o socorro por um telefone de emergência. Uma ambulância na base operacional mais próxima atendeu a ocorrência e, nos mais longos 14 minutos que disse ter vivido, já estavam recebendo socorro ESPECIALIZADO. Uma ambulância UTI, com médicos treinados em emergência. Isso NÃO TEM PREÇO.

Hoje, nosso amigo, antes conhecido como o “pirata das estradas”, entende o valor embutido na tarifa. Pelas contas dele, por mais que viva e por mais tarifas que venha a pagar depois do acidente, nunca vai repor os valores materiais e profissionais envolvidos em seu resgate.

Ao pagar o pedágio, o usuário tem acesso a benefícios que se traduzem em mais segurança e conforto. Isso não pode ser medido em $ no dia a dia, mas pode ser sentido por quem trafega com tranquilidade. Porque você renova o seguro do seu carro todo ano, se nunca precisou dele? Por que um dia pode precisar. Pensando assim, tem lógica pagar pelo uso de uma rodovia, em boas condições, com segurança, serviços, bases operacionais, … O guincho de uma rodovia pedagiada tem a previsão de chegada ao veículo enguiçado, de 30 minutos, levando você e seu carro para local seguro e protegido. Experimente saber com sua seguradora, quanto tempo leva para que você seja atendido. Melhor esperar em local seguro, não?

Outro fator que pode passar desapercebido pelo usuário das estradas concedidas, é a redução drástica do número de acidentes. Isso é reflexo da manutenção da via, das campanhas educacionais que enfeitam as pistas, induzindo o motorista a repensar suas atitudes.

A tarifa está cara? Eu digo o seguinte: TUDO ESTÁ CARO. Eu pago caro pela água, pela luz, pelo plano de saúde, pela educação, pela comida, pelo combustível, pelos infinitos impostos em cascata embutidos em tudo que circula, pelos impostos dos impostos, pela corrupção que drena nossas riquezas. Se ainda não encontrei forma de combater estes abusos, não será também este o motivo que vai me perverter. Não é porque alguns fazem, que vou comprar produto barato roubado. Precisamos interromper a corrente, quebrar o ritmo e estabelecer a ordem.

Eu pago o pedágio com muita satisfação. Vejo retorno imediato, já no quilômetro seguinte. Levo comigo, junto aos sonhos de conhecer lugares, as pessoas mais preciosas da minha vida.

Se você, ainda assim, insiste em evadir-se de pagar pedágio, faça-o intimamente. Abstenha-se de angariar adeptos à sua prática. Tenha certeza que eu e muitos outros vão continuar pagando pela sua segurança e tranquilidade.

Pesquisando nos sites das concessionárias, compilei alguns outros números.

•    No âmbito da ECO101, em 2014, foram atendidas 140 mil ocorrências médicas e mecânicas
•    Ainda nos trechos da ECO101, foram repassados aos municípios cobertos, mais de 7 milhões e em tributos federais mais de 6 milhões, em apenas 6 meses de operação.
•    No âmbito da CONCER – BR040, em 2014, foram realizados 30.860 atendimentos mecânicos e 16.260 remoções médicas.

As ações das concessionárias não se limitam a socorrer, manter e investir. Atuam também na área social e ambiental, cobrindo mais uma lacuna deixada por quem deveria. Uma pesquisa mais cuidadosa vai trazer a tona projetos de recuperação de fauna e flora impecáveis, com resultados concretos e dignos.

Nós pagamos IPVA todos os anos e não vemos a aplicação do recurso. Nós pagamos, descontado na fonte, o INSS e o IRPF e não vemos retorno. E o IPTU também. Mas continuamos pagando. E não há manobra legal que nos livre da obrigação.

Já o pedágio nas rodovias, nos devolve qualidade, segurança e serviços imediatos. Porque então, agir contra o que está dando certo? Se é caro ou não, precisamos achar a esfera correta para discutir.
Carlos Roberto Paiva

 

Colunista: Carlos Paiva
Carlos Roberto Paiva tem 59 anos, é analista de sistemas quase se aposentando, natural do Rio de Janeiro. Montanhista entusiamado. Mora com a esposa Gleidys em Teresópolis, no Camping Clube Quinta da Barra, onde além de seu trailer fixo, estaciona sua Camper Duaron. Apaixonados por viagens, lugares e culturas novas, estão na estrada e nos campings há mais de 22 anos juntos. Editam os blogs Nas Estradas do Planeta e Cozinha Prática nas Estradas. nasestradasdoplaneta@gmail.com nasestradasdoplaneta.com.br, cozinhapraticanasestradas.com.br

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