Início do Caminho Farroupilha - Porto Alegre e Guaíba
 

Nossa Expedição Farroupilha foi à caça da história do Rio Grande do Sul. Mas também de uma série de destinos que possam atender a você turista e campista para conhecer mais sobre nossas próprias origens. A história do Rio Grande do Sul acaba não sendo somente parte daquele Estado, mas sim de todo o nosso país, pois se funde e confunde com acontecimentos importantes do Brasil como um todo.

A Revolução Farroupilha foi um levante. Estancieiros e Charqueadores junto aos intelectuais e à maçonaria confrontaram o império monarquista Brasileiro a fim de fundar uma nova República independente baseada nos dogmas da revolução francesa. O grande descontentamento se dava pelos altos impostos incidindo sobre o charque e o sal (matéria prima) taxados pelos imperiais ao mesmo tempo que facilitavam a importação da carne seca uruguaia.

O início do acontecimento histórico pode muito bem marcar o ponto de partida da rota turística. Onde tudo começou a ser planejado até a primeira batalha entre farrapos e caramurus. Guaíba ainda mantém intacta a casa de Gomes Jardim, onde foi planejada a primeira contenda Farroupilha que aconteceu em Porto Alegre, na Ponte da Azenha, em 20 de setembro de 1835.

Era século XIX. Porto Alegre era apenas uma vila de 14mil habitantes e o atual Rio Grande do Sul era penas a província de São Pedro do Rio Grande.

O sul do Brasil era uma terra praticamente vazia nos lá pelo século XVII. A necessidade de crescimento econômico ao mesmo tempo que defender a terra de invasões estrangeiras leva ao império à doação de onze sesmarias. Uma delas foi doada a Antonio Francisco Leitão cuja terra seria batizada de “Fazenda Pedras Brancas”. É a casa sede desta fazenda que conserva até hoje a origem da história do Rio Grande do Sul. Gomes Jardim, médico e casado com a filha de Leitão se estabelece na fazenda onde planeja todas as ações da primeira batalha Farroupilha.

Nesta série de artigos que iremos dividir por destinos turísticos, abordaremos também particularidades da história. Em uma delas iremos falar do Charque, mas é imprescindível sabermos que este foi o grande apelo econômico que, junto a tantos outros motivos sociais, deflagrou o interesse dos estancieiros pela revolução.

Apesar de ser intitulada de “guerra dos farrapos”, toda a concepção da revolução nasceu da elite. Estancieiros, charqueadores e intelectuais juntaram esforços através da força da Maçonaria para lutar, seguindo os dogmas da Revolução Francesa, por uma nova república. Os líderes militares planejaram a primeira batalha ali mesmo na casa que hoje abriga o Museu. Bento Gonçalves, Gomes Jardim, Onofre Pires dentre outros líderes reunidos à sombras do Cipreste Farroupilha traçaram seus planos.

Um único tiro assustou os oficiais imperiais que guardavam a Ponte da Azenha, entrada de Porto Alegre, na madrugada de 20 de setembro. Os 60 homens em seus respectivos cavalos comandados por Gomes Jardim tomam a vila enquanto os soldados fogem para a Capital Rio Grande atrás de reforços. O mesmo fez Antonio Rodrigues Fernandes Braga, presidente da Província. Este foi o início da Revolução que duraria dez anos. Em 1836 é proclamada a república riograndense e até 1845 muito sangue jorraria. Batalhas incansáveis nos pampas dividiram vitórias e derrotas. O motivo para uma resistência tão longa frente ao exército imperial foi que os farroupilhas dominavam a região de difíceis acessos e principalmente as cavalhadas, criação do animal extremamente importante para os deslocamentos e as próprias batalhas.

Bento Gonçalves, mais importante personagem desta história não estava presente na Batalha da Azenha, por estar preso em Salvador, mas tem grande participação em diversos momentos neste lugar – Guaíba. O militar dos mais experientes estrategistas chegou a lutar pelos imperiais inclusive nas guerras cisplatinas. Mesmo preso em outra Província, foi nomeado Presidente da República Riograndense, onde seu Vice Gomes Jardim assumira. No final de sua vida, morou na casa para tratar de sua doença (pleurizia) com seu médico e primo Gomes Jardim. Ali faleceu aos 58 anos de idade em 1847 tendo seus ossos enterrado em Guaíba até 1850.

OS PONTOS DE INTERESSE (TURÍSTICOS):

O MUSEU FARROUPILHA – CASA DE GOMES JARDIM

A casa que pertenceu e morou Gomes Jardim e onde também morreu o General Bento Gonçalves está de pé e restaurada. Dá um show de exemplo de como deve ser mantido e gerido um importante edifício histórico. Tombado, se transformou em museu com peças originais e principalmente um receptivo que conta com detalhes os acontecimentos da casa e da revolução. Um ingresso simbólico (R$ 3,00 em 2015). Caso esteja fechado, peça informações na Vitrine Cultural que eles entrarão em contato com os responsáveis pelo museu.

Museu Farroupilha – Casa de Gomes Jardim (Foto: Paula/Marcos Pivari – MaCamp)

Quarto onde Morreu o General Bento Gonçalves (Foto: Paula/Marcos Pivari – MaCamp)

Interior do museu (Foto: Paula/Marcos Pivari – MaCamp)


Diversas peças históricas e o primeiro livro de receitas do Brasil com receita com charque (Foto: Paula/Marcos Pivari-MaCamp)

Endereço:
Rua 14 de outubro, 370
Guaíba – RS
-30.110321, -51.317370

O CIPRESTE FARROUPILHA

Na Praça em frente ao Museu Farroupilha – Casa de Gomes Jardim, está plantado o Cipreste Farroupilha de mais de 300 anos. Era de costume na Europa que navegadores levassem em seus navios sementes do cipreste comumente plantados nos cemitérios do velho continente. Elas serviam para ornar as sepulturas dos que morriam pelo caminho, exatamente como acontecido com uma tropa de soldados espanhóis muitos anos antes da revolução, enterrando ali seu comandante. Este cipreste simboliza a morte, a tristeza e o luto e pode viver mais de 2.000 anos (se no clima original) se mantendo sempre verde. A relação deste cipreste com a Revolução Farroupilha está no simples fato de que os líderes planejavam as ações deste levante exatamente à sombra da árvore. Em torno de uma mesa à sua sombra, líderes importantes como General Bento Gonçalves, Gomes Jardim e Onofre Pires traçaram estratégias para invadir Porto Alegre. Hoje o Cipreste é considerado Patrimônio Histórico e Cultural do Estado. Os restos mortais de Gomes Jardim foram transferidos para esta praça em 1920.


Cipreste Farroupilha: 300 anos de idade sombreou os planos republicanos (Foto: Paula/Marcos Pivari – MaCamp)


O trailer da Expedição Farroupilha – MaCamp na sombra do Cipreste (Foto: Paula/Marcos Pivari – MaCamp)

Endereço:
Rua 14 de outubro x Rua Pedras Brancas
Guaíba – RS
-30.110045, -51.317315

VITRINE CULTURAL

O centro cultural – Memorial da Chama Crioula do Milênio está muito próximo do museu e possui vista privilegiada para a Lagoa e Porto Alegre. O espaço com parceria com a prefeitura e a fundação Toyota possui exposições culturais itinerantes, além de painéis que contam sobre a revolução farroupilha.


Vitrine Cultural de Guaíba (Foto: Paula/Marcos Pivari – MaCamp)


Chama Crioula – Símbolo do apego do gaúcho à terra (Foto: Paula/Marcos Pivari – MaCamp)


Exposição Itinerante. (Foto: Paula/Marcos Pivari – MaCamp)

Endereço:
Rua 14 de outubro, 313
Guaíba – RS
(51) 3403-1805

30.110208, -51.316847

PONTE DA AZENHA

O primeiro grande cenário das batalhas de dez anos da Revolução Farroupilha não pode faltar no roteiro. A ponte que não chama tanto a atenção em meio à Capital não é propriamente a original, pois foram sendo reconstruídas diante de inúmeras inundações. O monumento ao mais importante episódio da história gaúcha foi reconstruído em concreto com piso similar ao original e tratamentos anti vandalismo. A ponte ganhou luminárias, balaústres e escadarias. A visitação é um tanto conturbada, pois ali se cruzam importantes e movimentadas avenidas de Porto Alegre. Logo ao Lado está o monumento à Maçonaria.

Ponte da Azenha (Foto: Paula/Marcos Pivari – MaCamp)

Endereço:
Esquina Av. Ipiranga x Av. Azenha
Porto Alegre – RS

-30.047495, -51.213633

MONUMENTO À MAÇONARIA

A maçonaria está intimamente ligada à Revolução Farroupilha. A força política, intelectual e principalmente de irmandade foi decisiva para diversos acontecimentos do levante. Apesar de não ser uma religião, a maçonaria era um espaço onde os livres pensadores podiam discutir e se opor à igreja católica e ao absolutismo e a fim de evitar as perseguições, muitas vezes mudava de lugar. A Maçonaria aceitava pessoas de todas as religiões e credos, menos os ateus. A bandeira Riograndense leva as cores do Brasil, Verde e amarela, e mais a cor vermelha que possui duas leituras. Uma significa o “sangue derramado” do Rio Grande do Sul e a outra revela exatamente a vertente maçônica Francesa cuja participação foi crucial na revolução.

A ata de revolução, assinada na antiga Rua da Igreja em Porto Alegre, representava a recusa por parte dos intelectuais, políticos, professores e etc. da opressão do império. O charque e os impostos não foram a única causa da revolta farroupilha. Além de muitas outras causas abertas, houveram muitas causas secretas da maçonaria. De ambas, por sinal. Francesa, vermelha, republicana que era descendente das relações de amizade e parentesco. Inglesa, azul, monarquista que chegou via Portugal pela corte. Se até hoje ambas coexistem, a dicotomia azul e vermelha já existia no Rio Grande do Sul naquela época. (GRENAL nao a toa). Bento Gonçalves era membro da Maçonaria e contrariando a normalidade, se tornou grau 33 em pouco mais de 5 anos. Grau dificílimo de se atingir, necessita de muitas etapas e conhecimentos da ordem. Curiosamente, Bento Gonçalves não era inicialmente republicano, mas sim monarquista constitucional. Alguns líderes católicos também se iniciaram na Maçonaria e traziam geralmente a visão republicana contra o império. A força Maçônica teve muita participação na revolução, a citar a libertação de Bento Gonçalves da prisão em Salvador. Percebendo que alguns soldados eram Maçons, Bento apostou na fidelidade maior à maçonaria do que ao império tendo estes facilitado sua fuga a nado até um Navio cujo comandante também pertencia à ordem. Estrategista como tal, molhou os pavios dos canhões antes de se lançar ao mar evitando a resposta. Vencendo o caminho terrestre a cavalo, já chegava como presidente da república Riograndense.

O monumento, ao lado da Azenha, está cercado de grades para evitar vandalismos e possui duas torres, sendo uma Jônica (sabedoria) e outra Dórica (força).


Monumento à Maçonaria (Foto: Paula/Marcos Pivari – MaCamp)


Símbolos Maçônicos (Foto: Paula/Marcos Pivari – MaCamp)

Endereço:
Esquina Av. Ipiranga x Av. Azenha
Porto Alegre – RS
-30.047190, -51.214055

Os municípios de Porto Alegre e Guaíba ainda carregam inúmeros e incontáveis interesses turísticos que não caberiam neste artigo, mas sem dúvida acima estão os pontos fundamentais para se percorrer o caminho Farroupilha nas rotas do Rio Grande do Sul. Há opções de campings nas redondezas, mas não muitos. A dica que fica é que para visitar os pontos abordados, apenas um dia é suficiente, podendo fazê-los em passagem. Nossa expedição fez isto, saindo do Vale dos Vinhedos e terminando o dia em São lourenço do Sul – Camping Municipal – de onde foi possível se deslocar para mais alguns municípios e localidades da rota Farroupilha.

Mapa do Roteiro

Marcos Pivari


 

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CEO e Editor do MaCamp | Campista de alma de nascimento e fomentador da prática e da filosofia. Arquiteto por formação e pesquisador do campismo brasileiro por paixão. Fundador do Portal MaCamp Campismo sonha em ajudar a desenvolver no país a prática de camping nômade e de caravanismo explorando com consciência o incrível POTENCIAL natural e climático brasileiro. “O campismo naturaliza o ser humano e ajuda a integrá-lo com a natureza.”